“A criação da feira mensal de Caçarelhos foi requerida à Câmara Municipal de Vimioso pela Junta de Paróquia e moradores do povo de Caçarelhos em 1877. (…) "acordou designar o local a onde deve selebrar-se mensalmente no dia vinte e quatro a feira novamente criada para o povo de Caçarelhos; sendo para o gado meudo e graúdo no sitio do prado da fontasia; e para os objectos de comercio e géneros de consumo à rua da igreja do mesmo povo.” (…) Sempre este Povo lhe chamou "toural" e "praça". No "Toural" se reunia e negociava o "gado miúdo e graúdo". A Câmara localizou no prado da Fontásia. Aí começou e findou.(…) A "praça" carecia de infra-estruturas, nomeadamente dos "Cabanais" (…) o que se conseguiu implantando nesse local a tríade formada por "Cabanais", novo Cemitério Público, concluído em 1887 e a capela da Sagrada Família, cujo frontispício marca a data de 1893.(…) O amplo "toural" da Fontásia transbordava de ovinos e bovinos, procurados por compradores adventícios de perto e de longe. Na "praça", ambulantes, produtores e artesãos expunham as suas mercadorias. Pelo abrigo no interior dos "cabanais" cobrava a autarquia local modestíssima quota a quem aí vendia os mais valiosos objectos de fábrica, de ourivesaria ou, inicialmente, também servia a boa "posta" de genuína carne mirandesa. (…) As feiras desta região perderam alguma da sua inicial importância quando as câmaras de Vimioso e Miranda, aí por 1945, aumentaram o seu número em ambos os concelhos. A de Caçarelhos passou a bimensal: uma pelo início do mês outra no dia 19. (…) Só a "praça" conseguiu sobreviver até ao presente, no dia 19. A História e a Tradição desta feira mensal já contam 125 anos de existência. Parece ser a única estrutura do género ainda existente e a ser utilizada. “Essa referida área recebeu os melhoramentos que teve direito pela sua inclusão, em 1997, no Plano Global de Intervenção do Centro Rural do Planalto Mirandês …”
Embora longe daqui, vem ao de cima aquilo que sinto por ti. Este aperto no coração, a saudade por esse teu cheiro. O Teu amanhecer, tua brisa, teu despertar, tudo me cativa por ti. Embora aos poucos te veja desaparecer fica dentro de mim teu encanto, O teu sentimento, esse povo que vive em ti, por quem me sinto. Mas de facto é graças a este teu ser que me sinto a ti prisioneiro.
Saudades das trilhas, esse teu calor que abafa nas tardes do verão. Noites frias, noites de geada ó pura lua quando vezes eu já fui feliz aqui, Quantas vezes já chorei por ti, quantas vezes eu te tive na mão... Quem não se lembra da tua beldade, a luz por quem nasci.
Por ti recordo, por ti eu volto, por tudo que tu de tão bom me dás... Por mais um momento que gravas na minha vivência. Por um minuto, um instante um simples olhar que despertas-te em mim, De facto és único e sem querer tudo em ti é um mérito sem fim, por quem vivo a quem devo minha tão apreciada existência, a qual dou tanto valor, tudo é belo, tanto para a frente como para trás.
Embora brincando com palavras, é a ti que eu as devo, é a ti que as dedico, por quem as canto, por quem me elevo. Se o mundo é vasto por muito pequeno que sejas tornas-te imenso, dás-me energia, afago, carinho, defines minha alma, meu pensamento. e desse modo me apaixono, dessa forma eu vivo mais um doce movimento. Não, não é blasfemea, quem me entende sabe que é vero este sentimento.
Lindo Caçarelhos, como diz a canção, quem não disse isto já alguma vez, quem não te apreciou e se sentiu puro, grato, simplesmente diferente. Mais calmo, mais belo, com vontade de cá voltar mais do que uma vez. Por mais que queira não há um dia que me sais da mente. Pois é simplesmente impossível esquecer o bem que me faz, o bom que me dás, essa lágrima que se solta quando sinto a tua falta, mas simplesmente o que sei é que sinceramente és mais que um sonho, Mais que coisa alguma, és tu e só tu ó lindo Caçarelhos
Foto: Carla A. Gonçalves na Maria Ramalho chegou a cozer três e quatro fornadas de pão por dia para vender para todo o distrito
Produto que continua a atrair àquela localidade visitantes embora na freguesia já não haja quem produza para vender
O pão de Caçarelhos é produto que continua a atrair àquela localidade inúmeros visitantes de todo o distrito e da vizinha Espanha, embora não haja na freguesia quem produza para vender, como em tempos. Desde há nove anos atrás que a Feira do Pão de Caçarelhos se realiza no Domingo de Ramos, antecedendo a Pascoa, num só dia que é sobretudo de festa e de convívio para os habitantes locais. Dedicado ao pão, mas também ao folar, às roscas e rosquilhas, aos económicos, ao fumeiro e ao queijo, este é um evento que serve, sobretudo, para ajudar os produtores locais e que, quase a comemorar uma década, tem-se afirmado positivamente, conforme apontou o presidente da Junta local. “A aldeia de Caçarelhos sempre foi conhecida pelo pão e, enquanto as pessoas da aldeia quiserem, este é um evento que vamos manter e apoiar”, justificou Sérgio Pires. Para quem participa no evento desde a primeira hora, como Ana Maria Ramalho, esta é também uma forma de manter viva a tradição local e continuar a perpetuar a “fama” do pão de Caçarelhos. Em tempos, Ana Maria Ramalho chegou a cozer quatro vezes por dia para dar resposta aos pedidos que lhe chegavam dos compradores. No entanto, devido a problemas de saúde, a produtora foi “obrigada” a deixar essas lides. “Agora só cozo para esta feira, para mim e para algumas pessoas que me compram”, apontou. No seu stand era possível encontrar o folar de ovos, o folar de pão, roscas doces, económicos, cavacas, pão caseiro e pão centeio, entre outros produtos da terra preparados ao longo de três dias. Também Ana Maria Ramalho considera que este é um evento que se justifica e “vale a pena”, até porque consegue vender praticamente todos os produtos. Da mesma opinião é Armandina Preto que expõe apenas há quatro anos fumeiro tradicional. “Não trago pão, apenas fumeiro de dois porcos mas vendo sempre tudo. As pessoas já me conhecem de anos anteriores e voltam para comprar”, apontou. Com um investimento “irrisório” a rondar os mil euros, e o apoio da autarquia de Vimioso, o certame junta cerca de 20 expositores, a maioria da localidade e de concelhos limítrofes, e é mesmo um dos eventos mais importantes da localidade. “É um dos maiores eventos que realizamos, a par com as festas e com o raid, que se realiza em Maio e que atrai muitas pessoas, sobretudo de fora”, apontou Sérgio Pires.
A junta de freguesia de Caçarelhos e o INATEL (Bragança) com a colaboração de Trilhosbtt.com, convida-o a participar na 3ª edição do Raid BTT “Rota dos Moinhos de Água”, que se realizará no dia 10 de Maio de 2009, com partida junto ao Polidesportivo, pelas 9.00 horas.
O Raid BTT “Rota dos Moinhos de Água” é um passeio ao estilo mini-maratona entre montanhas e lindas paisagens transmontanas, com passagem por vários Moinhos (no Carvalhal, em Caçarelhos e na ponte de Vimioso). Nesta edição, o Raid contém, como vem sendo hábito, três percursos: um com cerca de 70 Km, outro com cerca de 30 Km e um de 15 km.
Para aqueles que não querem pedalar, a organização preparou, um passeio pedestre com passagem pela nossa Senhora do Rosário. A 3ª Edição do Raid BTT possui novos trilhos, tornando-a ainda mais espectacular. Inicia-se junto ao polidesportivo, desce até às minas de Stº Adrião, onde se efectuará a separação para os 15 km. De seguida, o Raid segue até Vila-Chã, sobe em direcção à Quinta dos Picadeiros, dirigindo-se até ao rio Angueira. Neste troço passa-se pela ponte Romana, (existem, nesse local, Moinhos de Água), prosseguindo em direcção à freguesia de Caçarelhos.
Na passagem pela freguesia de Caçarelhos será colocado o ponto final para os 30 km. Os participantes com forças físicas continuam para os 70 km. O percurso contempla passagens por várias aldeias típicas do Nordeste Transmontano, terá passagem pela Aldeia de Sº Joanico, seguindo depois para Serapicos, continuando até Angueira. Por último o raid, também, passará por Genísio, como vem sendo habitual, e terminará em Caçarelhos. A dificuldade manter-se-á em média (nível 3). Para outras informações: fotos e regulamentos da actual e anterior edição; http://www.trilhosbtt.com/ Informações gerais. geral@trilhosbtt.com Tel: 96 2567292 - Aos menores de 18 anos será exigido um termo de responsabilidade, assinado pelos pais. - É obrigatório o uso de capacete devidamente colocado durante todo o percurso. - Todo o comportamento antidesportivo implicará a desclassificação do atleta.
NORMAS DE SEGURANÇA
Ceder passagem a outros transeuntes não motorizados;
Abrandar à proximidade de pedestres e cavaleiros e ultrapassa-los com precaução, após os haver prevenido;
Controlar a velocidade nas passagens sem visibilidade;
Circular nos trilhos para evitar destruir a vegetação, evitar passar sobre culturas;
Passar à distância de animais selvagens e não enervar os domésticos;
Jamais deitar detritos no solo, conservá-los até ao próximo caixote do lixo. Advertir quem assim não proceda;
Respeitar a propriedade privada e pública;
Aprender a rolar em autonomia total, saber efectuar reparações;
Saber, em todas as ocasiões, estar de forma discreta e amável;
Usar o capacete a fim de se proteger, em todas as circunstâncias.
A Sarandilheira – La Çarandilheira em língua mirandesa – é uma conhecida música de Caçarelhos, concelho de Vimioso, divulgada fora das Terras de Miranda do Douro, graças à extraordinária interpretação de Né Ladeiras e aos Gaiteiros de Lisboa, entre outros grupos urbanos que a cantam. As duas avozinhas, no vídeo, chamam-se Avelina e Adélia Garcia.
Numa pesquisa na Internet não encontrei a letra da "La Çarandilheira", nem o significado da palavra em dicionário de mirandês. No entanto no Forum da Língua Mirandesaé dada a informação que 'çarandilleira' é a mulher que usa a saranda, instrumento com crivo utilizado na eira para separar o cereal da palha.
Em dicionários de português encontrei os verbos sarandar e sarandilhar com o significado de criança ou mulher irrequieta, sem nada para fazer, que não se fixa numa tarefa em particular. Este significado também é referido no Forum.
Embora a sarandilheira seja a mulher que na eira usa a saranda, a canção parece referir-se àquela, como a 'pobrecita Inês' , que gosta de sarandar, divertir-se, ir a festas e merendar com as amigas. Antigamente, na Quinta-feira antes do Carnaval, até havia o costume da merenda das comadres em que as mulheres, sem os maridos, se sentiam bem.
De pesquisa em pesquisa descobri o Cancioneiro de San Andrés de Teixido, Galiza. Nele faz-se referência à versão de um romance conhecido pelo nome de Tres Comadres, do qual transcrevo alguns versos, pela semelhança que têm com a letra de La Çarandilheira.
Tiago Pereira, realizador, seguiu B Fachada até às cantadeiras transmontanas. É um filme e um manifesto. O que temos é isto: um músico de viola em punho calcorreando Lisboa, tocando às portas da Sé, tocando num banco de mármore enquanto uma velhota, a seu lado, acena a um conhecido que passa. O que temos é isto: esse músico de viola em punho, encostado a um galinheiro em Trás Os Montes e uma mulher encurvada que limpa o galinheiro e que à saída larga um sorriso para a câmara. O que existe em "B Fachada - Tradição Oral Contemporânea" é um músico lisboeta transformado em andarilho. Canta as suas canções na sua cidade, viaja até às aldeias de Caçarelhos ou Algoso para as mostrar a quem lá vive e regressa com as músicas que ali lhe ensinaram. Em Caçarelhos ouvem-no com atenção para aprender as novas melodias, em Lisboa acham que são dele as canções seculares que aprendeu em Trás Os Montes.
B Fachada, músico que conhecemos em 2008 através dos EPs "Sings The Lusitanian Blues", "Mini CD Produzido Por Walter Benjamin" e o magnífico "Viola Braguesa", serve como ponte entre esses dois universos. Dirá ao Ípsilon ser "como um sapateiro": "quero fazer canções como o sapateiro faz sapatos e sei que vou passar a vida a fazer uma data de sapatos para caber nos pés das pessoas, apesar de estar sempre a fazer a minha ideia de sapato". Tiago Pereira, por sua vez, foi o realizador que construiu a ponte para Fachada, reflexo de um interesse pela exploração e reflexão sobre a tradição musical popular que contamina o seu trabalho - servem como exemplo "Onze Burros Caem de Estômago Vazio", filmado no planalto mirandês, ou "Arritmia", sobre o Festival Andanças.
Agora, no final de "B Fachada - Tradição Oral Contemporânea", que estreou sexta na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, vemos escrito: "Este filme nasceu a partir do momento em que, ao ouvir o trabalho de B Fachada pela primeira vez, senti uma proximidade gigante, como se toda a vida tivesse conhecido aquelas músicas. E elas fizessem também parte da tradição oral". Tiago Pereira, que se dedica à recolha musical etnográfica há cinco anos e que escreveu há tempos um mini-manifesto intitulado "Kill Giacometti" - "tradição é transmissão e não sacralização de espaços, velhos ou reportório", lia-se -, descobriu em Fachada o veículo (e cúmplice) para revelar o seu olhar sobre a tradição e a música tradicional. Ao Ípsilon, dirá que a premissa do filme é esta: "Como é que um tipo da pop, que faz música assim há um ano, consegue de repente fazer os outros acreditar que as músicas que aprendeu [em Trás Os Montes] são dele?". Ou melhor, emendará mais tarde, a premissa pode também ser a seguinte: "Desmontar a história de que a tradição é uma coisa rural. Por isso é que o filme está tanto no campo quanto na cidade. Tradição é transmissão. Não vamos andar à procura do purismo onde ele não existe".
Fachada e os "velhinhos" todos Filmado entre Agosto e Dezembro de 2008, com uma hora de duração, "Tradição Oral Contemporânea" vive da música que B Fachada toca e aprende, vive dos locais e das pessoas com quem o vemos tocar. A dar à viola num comboio suburbano enquanto o sistema sonoro anuncia "próxima estação, Santo Amaro de Oeiras". Sentado num banco de pedra do Rossio, rodeado de gente dele alheada enquanto interpreta "Dona Filomena", canção que aprendera dias antes em Trás Os Montes. E, antes disso, B Fachada em Caçarelhos trauteando uma música de verso único - "já toquei na Zé dos Bois, na Zé dos Bois, na Zé dos Bois" -, ou a aprender essa que tocará no Rossio com Adélia Garcia, a outra protagonista do filme e cantadeira que, na década de 1960, Michel Giacometti fez questão de conhecer para as suas recolhas.
A montagem de Tiago Pereira, viajando entre os dois universos, expondo-os em paralelo ou em sobreposição explora uma equivalência: como se, apesar das diferenças (de cultura, de cenário, de experiência de vida), a música urbana e moderna de Fachada nascesse do mesmo impulso que a música rural e ancestral cantada por Adélia Garcia. "Aquilo que primeiro me chamou a atenção no B Fachada foram as letras. Jogavam com a ideia de incoerência e tinham um surrealismo que faz parte da tradição popular, quer a das cantigas, quer a da [artesã barrista barcelense] Rosa Ramalho". Continua: "Na biografia do António Variações ['Entre Braga e Lisboa'], da Manuela Gonzaga, Vítor Rua diz que Giacometti foi à procura dos velhinhos com um gravador, enquanto o Variações já tinha os velhinhos todos dentro dele e, de repente, transformou aquilo tudo. O Fachada não tem os velhinhos todos dentro dele, mas a abordagem é semelhante. A tradição oral é transmitires o que vives, passá-lo de geração em geração, alargá-lo e criar combinações infinitas". Chegamos assim a uma canção de "Viola Braguesa", precisamente "Tradição", que surge como basilar em "Tradição Oral Contemporânea". A transcrição que segue é longa, mas obrigamo-nos a fazê-la para melhor acompanhar o que se segue. Eis os seus primeiros versos: "Nestes dias tive tempo p'ra pensar/ Se a tradição estará mesmo para acabar / E cheguei à conclusão fundamental / Que nesta história da canção tradicional / É bonita ouvi-la vir de alheia mão / Mas mais bonito ainda é vir do próprio coração / Se depois tem que resultar num bem comum / Isso não nos pode pôr problema algum / Que o colectivo que há em cada um de nós / Não tem, porra, apenas uma voz".
Foi essa canção e a gravação do vídeo que a acompanha que desencadeou o filme. Quando Tiago o disponibilizou na net, tornou-se um fenómeno e, por ser construído a partir das 52 vezes que Fachada tocou a canção em 52 locais diferentes do Andanças, foi visto como homenagem ao festival. Precisamente o contrário, explica Tiago: "A ironia era subtil e muitos não a perceberam. A verdade é que aquele é um festival igual aos outros, com a diferença de os músicos não serem pagos e não serem aceites patrocínios". B Fachada prossegue: "Qualquer coisa serve para eu fazer uma canção. Na Flor Caveira [a editora que lançou "Viola Braguesa"] dizem que se deve ter cuidado em ter-me como inimigo, porque sempre que tenho um problema com alguém, a chantagem é escrever uma canção. E, de facto, o Andanças parecia desdobrar-se de hora a hora em motivos para que aquela canção se fizesse. Sessões de djambé às 6 da manhã, com um gajo a tentar dormir. Uma tenda cheia de gente de braços no ar com a música de fusão dos Olivetree quando, ao lado, estava um grupo de gaitas galegas a tocar para ninguém".
O que a canção dizia é que a tradição não é imutável, não é "exotismo urbano" e músicas do mundo", como diz Fachada a determinado momento do filme. Pois bem, a partir da gravação do vídeo no Andanças, Tiago Pereira ficou "preparado" para o que viria a ser "Tradição Oral Contemporânea". Antes disso, confessa, "sabia que o ia levar a ver as pessoas em Trás Os Montes e, porque as conheço, sabia o que aconteceria nesse encontro. Não sabia o resto". O que acontece então é essa viagem em salto constante. B Fachada em Caçarelhos e no Algoso e uma cena belíssima em que acompanha Adélia Garcia à guitarra, em que outra cantadeira, Avelina, sentada ao lado deles, improvisa com duas conchas o ritmo da canção. Isso ou Fachada a mostrar a sua música a Adélia, em cenário caseiro de lareira acesa, e ela a ouvi-lo com atenção enquanto o marido corrompe a "seriedade" do momento perseguindo insectos com o mata-moscas. Sobre B Fachada, Adélia tem no filme opinião firme: "Como não querem que cante bem? É novo". Sobre Adélia, Fachada teoriza: "Existe o conhecimento colectivo e a comunidade tradicional. Depois, existem três ou quatro pessoas por geração com grande capacidade de memorizar esse conhecimento, essas canções, e de as alterar. A Adélia tem uma memória que não se encontra, que não conheço". É a ela que Fachada resgata a supracitada "D. Filomena", canção centenária de sangue e traição, que passou a interpretar regularmente. Em "Tradição Oral Contemporânea", lá a ouvimos entre as suas canções lisboetas, as suas canções que referem Frank Zappa, que falam de Bagdad, que inventam aforismos portáteis para o século XXI. Este é o ponto fulcral: o que interessa a Tiago Pereira e a Fachada é a possibilidade de renovação da tradição, é recusá-la como passado imutável, é "perder aquela arrogância urbana de achar que o conhecimento tradicional é circunstancial". Fachada: "É um vício de século XX e XXI achar que nos últimos seiscentos anos o mundo esteve sempre igual e que agora é que isto está a mudar, ou seja, que as circunstâncias que permitiram a tradição formar-se deixaram de existir. A tradição e o conhecimento comunitário são inatos e não desaparecem por haver um TGV a ligar Lisboa ao Porto".
Erguido em 1777, o cruzeiro de Caçarelhos tem duzentos e vinte anos.Apesar das marcas deixadas pelas inclemências do tempo e pela incúria dos homens, lá permanece Integro, aprumado, imóvel, sempre de braços abertos para receber quantos o visitam ou lhe imploram divinos favores.Humildemente solene e quase majestoso, é simplesmente belo. Além de constituir um apodíctico documento da história local, simboliza e perpetua a milenar devoção eclesial à Santa Cruz, ainda tão viva e actual como a concorrência de fiéis e devotos aos santuários de Cabeça Boa ( Samil ), Outeiro e outros que a evidenciam.No campo da arquitectura/escultura é uma das mais preciosas jóias que integram o rico e variado acervo cultural transmontano, uma valiosíssima raridade mal conhecida, pouco apreciada e cuidada.
"Cruzeiro mais belo de todo o Distrito, monumento Interessante" lhe chamou António José Teixeira no seu opúsculo "Em Volta de uma Espada", publicado pela Câmara de Miranda em 1931. "Magnífico cruzeiro mais lindo do distrito" (de Bragança) o consideraram os autores da excelente obra "À Descoberta da Portugal", editada pelas conceituadas Selecções do Reader’s Digest em 1983.Todo construído de puro e fino granito daquela localidade, este CRUZEIRO constitui um conjunto arquitectónico e escultural barroco do último período, o chamado joanino português (D. João V).Na direcção dos pontos cardiais, quatro lanços de escadas dão acesso ao patamar do CRUZEIRO. Assentes em maciço de alvenaria, foram originalmente trabalhados a pico fino que lhes modelou os degraus em forma de "papo de rola". O natural declive do terreno obrigou a que o lanço oriental ficasse com três degraus e o ocidental com cinco.O patamar é um quadrado com 117 centímetros de lado. Dele emerge o pedestal; sobre este assenta a coluna, que suporta a cruz. A altura total do monumento, medida desde o patamar ao topo da cruz, ultrapassa os cinco metros, que são concretizados por seis blocos granitosos habilmente cinzelados e decorados.O PEDESTAL mede 120 centímetros desde o soco, que é quadrangular com 93 centímetros de lado, até à cornija cujo filete é de 103 centímetros. O tronco ou corpo do pedestal apresenta a forma de prisma quadrangular regular com 66 centímetros de aresta da base e 1 metro de aresta lateral. No centro das cartelas de três das suas quatro faces, ficou inicialmente gravada em algarismos árabes a data da sua construção ainda perfeitamente legível. A cartela ocidental tem as letras iniciais" AW. DI. ", Abreviatura de" ANNO DOMINI cuja tradução literal em português é ANO DO SENHOR". Rodando da esquerda para a direita, na cartela meridional vem esculpido o número 17 e, na oriental, o 77. Obviamente que o conjunto sequencial quer dizer" ano do nascimento de Cristo de 1777. "Um floral estilizado preenche e adorna toda a face setentrional, que nunca teve qualquer inscrição.A COLUNA, primorosamente decorada, com uns 3 metros de altura, é a parte mais graciosa e rica, aquela que mais elegância e solenidade confere ao monumento. Em conformidade com os parâmetros da boa arte clássica, também esta coluna começa por uma base, que é de forma ática, à qual se segue um fuste diminuído, por adelgaçar de baixo para cima, e termina num lindo capitel.Esta base é constituída por um plinto quadrangular de 66 centímetros de aresta e por dois toros entremeados por uma escora de 22 centímetros de raio, a média da grossura de toda a coluna.O fuste, parte central da coluna, tem o terço inferior mais bojudo e bem decorado, com uma retícula de tipo geométrico constituída por losangos e elipses em filas horizontais alternadas. Os outros dois terços vêm ornamentados com caneluras, que são duplas no terço médio e simples no superior.Um capitel compósito corint6-jónico, muito bem ornado com folhas de acanto estilizadas, remata a coluna. A CRUZ, que é romana e de braços quadrangulares com arestas rebaixadas, mede pouco mais de 1 metro de altura e constitui um monobloco granítico com o crucifixo.A notória desproporção entre as avantajadas medidas da imagem e as diminuídas da cruz que a sustém não se deve a qualquer imperícia artística. Foi clara intenção do escultor evidenciar a imagem de Cristo. Por isso esta E relativamente grande. Sob o ponto de vista religioso, é a peça mais importante de todo o monumento. Tudo ali para ela converge Pode mesmo dizer-se que o crucifixo está para o sentido religioso como a coluna está para o sentimento do belo.Nesta, como em qualquer obra de arte religiosa cristã, a decoração não é algo desnecessário, inútil ou supérfluo.É antes um bom processo de conduzir a alma até aos átrios da fé e do transcendente. Todos os monumentos e obras de arte têm história.Este CRUZEIRO também tem a Sua, uma história cujos pormenores se diluíram na distância do tempo. Um misto imaginação e vaga lembrança coabitam em nubilosa e ancestral recordação que sobrevive no imaginário popular quase dissolvido no inconsciente colectivo. Coexistindo com esta e com ela interpenetrando e por vezes confundir persiste uma teimosa tradição popular, todos conhecida e aceite na localidade, que nos conservou alguns preciosos dados históricos exactos e concretos.Na falta de documentos escritos directamente referentes ao CRUZEIRO, excepto a data incisa no seu pedestal, é essa tradição, esclarecida e confirmada por outros dados históricos desse tempo, nos permitem ampliar o nosso actual conhecimento da verdadeira história de tão monumento.Além da data e lugar de nascimento, podemos conhecer também os artistas que construíram, os patronos que lhe custearam as despesas. O significado sócio-religioso, as causas próximas e remotas da sua erecção.De facto, o mesmo estilo joanino comum ao CRUZEIRO e à capela de Santo Cristo das Chagas e São Bartolomeu, a proximidade sequencial das suas datas, a inscrição gravada no frontispício da dita capela e o local de implantação do CRUZEIRO estão de pleno acordo com a referida tradição popular. É, pois, certo que ambos os monumentos são obra dos mesmos artistas, que estes foram pagos pelos dois padroeiros, isto é, pelo abade Jerónimo de Morais Castro e pelos "devotos de São Bartolomeu", que o CRUZEIRO foi ofertado pelos artistas aos patronos e pran¬tado à porta deste(s) em sinal de profunda. gratidão pela generosa recompensa com que os brindaram no final da obra da capela e pelo facto de os terem salvado das dificuldades económicas com que os iria vitimar um inicial orçamento mal calculado, que se esgotara pouco depois da execução dos fundamentos da empreitada.O padre Jerónimo de Morais Castro, aos 27 anos de idade, foi nomeado pelo papa Clemente XII, em 20/02/1733, abade de Caçarelhos, titulo que conservou pelo menos até 1774, segundo documentos autênticos que conheço. É possível que, nessa data, tenha abdicado a favor do Padre Bento José de Morais Castro, provavelmente familiar seu, o que lhe facilitaria aqui permanecer e continuar a patrocinar a conclusão da obra, até 1776. Este padre Jerónimo foi, portanto, abade desta freguesia desde 1733 até 1774, quatro décadas durante as quais se construíram os três melhores monumentos religiosos que possuímos: a igreja matriz, que tem as datas de 1752 e 1755, a capela São Santo Cristo e o CRUZEIRO. É digno de toda a nossa gratidão.Temos para com ele uma dívida moral de lhe perpetuar a saudosa memória, ao menos actualmente, na toponímia urbana local.A circunlocução "devotos do apóstolo São Bartolomeu" é uma espécie de antonomásia metonímica que parcial e intencionalmente oculta um verdadeiro patronímico, provavelmente por expressa vontade dos interessados ai visados. É que, de facto e em conformidade com o direito vigente no Antigo Regime de posse e uso de propriedades que permaneceu quase até ao final do século XIX, quando o novo Regime saldo do Liberalismo aboliu os vínculos adstritos a capelas e morgadios com a supressão destes, a família Bartolomeu manteve na sua varonia a administração e posse parcial dos chamados bens de mão morta, que tinham permanecido indevisos e como tais foram transmitidos a sucessivas gerações, desde André de Fresno, no século XVII.Assim se compreende que, nesse tempo, fosse a família mais abastada, influente e colaborante de Caçarelhos.A pequena inscrição gravada na frontaria da dita capela é tão concisa como precisa. A palavra esmolas inserida no contexto “com a ajuda das esmolas dos devotos de São Bartolomeu”, esclarece o género de colaboração por estes prestada. Não se trata, pois, do cumprimento de qualquer obrigação ou prestação imposta por lei, mas sim de oferta livre e espontânea, exclusivo efeito de generosa liberalidade. E essa atitude explica, por si só, a colocação do cruzeiro no lugar fronteiriço à casa de habitação da dita família. Tal não exclui, porém, a simultânea proximidade à primitiva casa da abadia; antes confirma a tradição local que a situa nas imediações da actual igreja matriz. Fosse qual fosse a importância da actuação de qualquer dos referidos benfeitores na construção dos três citados monumentos religiosos - igreja, capela e CRUZEIRO - sempre estes foram considerados totalmente públicos, pois jamais alguém se arrogou algum direito particular ou privilégio pessoal ou familiar sobre qualquer deles.Os duzentos e vinte anos da capela do Santo Cristo e São Bartolomeu, em 1996, ficaram assinalados por indispensável arranjo feito no seu altar, que foi segurado no muro posterior do edifício e adaptado a actuais normas litúrgicas da celebração da Eucaristia. Um pequeno grupo de pessoas ligadas afectivamente a este templo público, e que puderam contar com o dinamismo dos dois membros leigos da Comissão Fabriqueira, tiveram o prazer de custear esse melhoramento.O ducentésimo vigésimo aniversário, que este magnífico CRUZEIRO completa durante o corrente ano de 1997, deverá ser festejado e presenteado por todos quantos a esta povoação se sentem ligados por nascimento e/ou residência e também por laços familiares, culturais, afectivos ou quaisquer outros. Múltiplas, fortes e variadas são as razões que tal impõem.Antes de tudo, porque é nosso. É de todos. E o mais público de todos os edifícios públicos. A todos igualmente pertence sem que alguém sobre ele tenha qualquer privilégio senão o de mais o estimar e melhor o cuidar. Toda a gente a ele tem livre acesso. Nunca teve qualquer resguardo ou vedação. Situado num cruzamento de ruas e no centro geográfico da povoação, desde longa data se tomou sala de visitas do lugar, ponto de encontro de moradores, sobretudo da mocidade dos tempos de toca o bombo, a caixa e gaitade-fole, anteriores a cafés e televisão. Por ali passou praticamente toda a vida da aldeia. Ali se discutiram e decidiram os problemas importantes da povoação.Depois, porque todos mais ou menos teremos, de algum modo, contribuído para a sua de. gradação. Ninguém aqui terá vivido que por aquelas escadas não tenha alguma vez passado.E também porque é uma jóia sacra do mais alto preço, um tesouro que os nossos antepassados deixaram à nossa guarda e responsabilidade. É por isso duplamente sagrada para nós. Finalmente, por não podermos esquecer que é símbolo e síntese da nossa identidade sócio-cultural-religiosa, indelével documento da nossa história, exlibris da nossa terra, companheiro inseparável e presença reconfortante de todos os momentos, bons e maus.É de bom tom oferecer aos aniversariantes prendas agradáveis, valiosas, dignas e úteis.O nosso magnífico CRUZEIRO está a precisar de criteriosa limpeza geral e da remoção de acréscimos destoantes. A longo prazo, é também de elaborar um bom plano de recuperação e embelezamento de todo o seu espaço envolvente, a fim de corrigir erros do passado recente e evitar outros possíveis no futuro, sempre salvaguardando interesses particulares. A curto prazo e quanto antes, impõem-se o arranjo das escadas, que já acusam uma certa deterioração. Será, para já, a melhor prenda a oferecer, com a vantagem de ela reverter a favor dos oferentes.Como só a união faz a força, todos por um e um por todos na preservação do nosso CRUZEIRO, porque preservamos a nossa própria identidade sócio-cultural. Se todos os caçarelhenses quiserem e as autoridades ajudarem a todos os níveis, alguns mecenas surgirão também para ajudar a transformar um sonho em realidade. Porque, "quando Deus quer e o Homem sonha, a obra nasce".